quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O inferno dentro de Hell

Lolita Pille apresenta uma personagem que se envolve em uma atmosfera dramática ao expor os conflitos de quem sente o vazio existencial.

“Se os ricos não são felizes, então a felicidade não existe”, pensa Hell rodeada de seus amigos milionários que buscam por prazeres imediatistas nas drogas. Este insight da personagem do livro Hell, de Lolita Pille contradiz a clássica idéia que está presente no inconsciente coletivo, ‘dinheiro não traz felicidade’. Todos acreditam veementemente nisto, mas ninguém deixa de correr atrás do capital, nem que seja para se obter o básico para sobrevier.

Mais do que tratar da relação dinheiro e felicidade, o livro expõe o desequilíbrio em que estão presentes diversos jovens hoje em dia. Os casos de morte por overdose são freqüentes em um grupo social que apresenta as características descritas no livro, mas não só entre os milionários. No livro, lemos os palavrões de Hell em Caps Lock, esta expressão emocional é a revolta de uma criatura que sofre com o peso da ‘angústia’. Lacan definiu este sentimento como ‘a falta da falta’, Hell não tem nada para sentir a falta, ela tem tudo, o que a deixa em um estado de paralisia, de nada, de vazio existencial.

E quando o vazio aparece o ser humano busca preenche-lo de qualquer forma. A maneira que Hell foi educada é através, unicamente, do consumo, por isto, ela confunde felicidade com dinheiro. Mas ela berra, porque os gastos diários na rua Champs-Élysées não satisfazem nunca esta solidão que existe dentro dela. Ela tem medo dos verdadeiros laços de solidariedade e reciprocidade que sustentariam os sentidos da existência dela e prefere as substâncias entorpecentes que promovem uma fuga e prazer.

É nesta figura central que encontramos a decadência humana e a distorção do que se deve ser valorizado. O retrato escrito no livro pincela a face da individualidade e angustia. Hell é apresentada como a personificação de uma palavra alemã utilizada pelos poetas românticos quando queriam dizer que nem tudo o que desejavam era possível: weltschmerz (dor do mundo), ela carrega a dor do mundo em cada célula do corpo. Em um determinado momento do livro, dentro do banheiro da boate, ela passa falando a todos “Com licença, com licença, eu gostaria de cheirar o meu pó”. Nada mais importa, bater a cabeça só vai fazer sangrar, ficar de ressaca só vai deixar com a maior dor de cabeça, o que importa de verdade é se envolver com as sensações proporcionadas por aquele instante, em que trancada numa cabine do banheiro, ela cheira o pó em cima da tampa de uma privada.

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