quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mary & Max fala sobre a amizade vista aos olhos de uma criança

A animação longa-metragem em stop-motion escrita e dirigida por Adam Elliot chega aos cinemas como uma tentativa de encarar as animações de uma nova maneira.

Mary & Max (Mary and Max, 2009), lançado em abril nos cinemas nacionais não segue a linha tradicional da animação ocidental, tampouco simplifica o gênero a uma faixa etária. O filme apresenta temas maduros e segue a tendência que começou em 1995 com Toy Story, quando Hollywood finalmente percebeu o valor das animações direcionadas aos adultos. Esta nova visão surgiu devido à interpretação japonesa do que é fazer cinema, na qual a animação não é somente um gênero, é considerada também um meio.

O filme trata das sutilezas da vida diante dos acasos do destino e começa quando Mary Daisy Dinkle, 8 anos, australiana, envia uma carta a Max Jerry Horowitz, 44 anos, americano. A partir daí, é colocada em choque a visão de mundo de uma garotinha cheia de curiosidade com a de um homem mais velho e fechado, assim, com esta inesperada riqueza de encontros e prazeres sutis e infantis entre os dois nasce a amizade.

Lembrando um pouco algumas características do filme de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” de Jean-Pierre Jeunet, Adam Elliot provoca sensações em seus personagens e relembra o espectador de seus prazeres infantis como comer guloseimas e assistir o seu seriado favorito. Os sentidos de cada momento da vida dos personagens apresentam um gosto particular que pode ser muito amargo, como quando Mary não consegue enxergar mais futuro nenhum ou extremamente doce, quando os dois trocam cartas animadamente recheadas de bombons.

Porém, como é direcionado para um público mais maduro o filme, mesmo tratando de temas como suicídio, casamento, filhos, religião, sexo, amor e vida em sociedade, apresenta uma inocência comum diante dos desencontros da vida, beirando a infantilidade. Encontramos em Max um adulto que não amadureceu, apresenta todos os traços de criança e, por este motivo se encontra em Mary, a menininha de 8 anos. E o filme, assim como o seu personagem principal masculino, não amadurece com o desenrolar da história, continua cultivando valores infantis e sonhos ingênuos de que a amizade ultrapassa todas as dificuldades.

Inclusive, a década em que se inicia a troca de cartas (anos 70), era comum adquirir um “pen pal”, amigos de correspondência, mas hoje isto seria praticamente impossível, devido à introdução da internet e das redes sociais que só facilitaram a comunicação e as tornaram muito mais efêmeras e sem importância para os seus usuários. A Mary do ano 2010 não iria agüentar os comentários de um velho rabugento na sua página de recados do Orkut, o que torna o filme um pouco fora de época.

Estas características demonstram que, mesmo agora com a globalização da percepção que a animação é um meio para se fazer cinema, o “ocidente” ainda insere muitas qualificações do gênero infantil até mesmo quando o filme é direcionado a um público mais adulto. Em Mary & Max pode-se observar este fato, já que o filme apresenta uma atmosfera encantadora e prazerosa, transmitindo a sensação sutil que nos faz voltar a ver o mundo como uma criança com sonhos e esperança. Mas também, a história é um pouco deslocada no tempo e recheada de sonhos infantis, oferece o gostinho da infância novamente e faz lembrar como era bom acreditar que a amizade supera qualquer barreira.

Uma vanguardista um tanto quanto egocêntrica.

O filme “Coco Chanel & Igor Stravinsky” deixa nua a mulher que tinha como missão de vida vestir a elite.



Foi em Paris, no dia 29 de maio de 1913, durante o balé “A Sagração da Primavera” que Coco Chanel teve contato pela primeira vez com a obra do russo Igor Stravinsky. Enquanto a plateia vaiava e criticava a apresentação aos berros, Coco estava a se deliciar com o que via e admirava os dançarinos que pisoteavam o chão avidamente. Eles causavam estranhamento e os sons percussivos que saiam dos instrumentos de corda chegou a deixar todos chocados. Chanel ficou encantada com esta música vanguardista que, assim como ela, buscava a quebra de regras da Idade Moderna.



Esta é a primeira cena do filme Coco Chanel & Igor Stravinsky (2009), de Jane Kounen, que estreou este mês em São Paulo. Adaptado do livro “Coco & Igor”, de Chris Greenhalgh (que colaborou com o roteiro), o longa expõe o lado mais cru e arrogante da pessoa que foi Coco Chanel e conta o romance destas duas figuras importantes da época.



Sete anos após o primeiro contato, Stravinsky se exila na França na companhia dos filhos e da mulher e é apresentado à famosa estilista. Ela o acolhe em sua casa de campo, oferecendo o conforto de uma mansão. Coco sentia-se na liberdade de chegar a hora que bem entendesse e fazer o que bem quisesse com os moradores da casa e, no que dizia respeito ao compositor, isso incluía um jogo de sedução e prazeres sexuais. As cenas em que os dois estão na cama são apresentadas com uma primorosa direção de arte, que combina a arquitetura e decoração moderna da mansão com os dois corpos nus, como se eles fossem parte do ambiente doméstico.



Em paralelo ao romance tórrido, a estilista busca também um perfume que seja a sua representação odora e analisa diversas essências apresentadas, rejeitando a maior parte das opções. Quando finalmente encontra o odor ideal, dá seu nome à fragrância de número 5. E é exatamente com este perfil solar que Coco faz o mundo girar em torno de si, inclusive no relacionamento com Stravinsky, no qual a observamos tornar aquele que foi o maior compositor do século XX em mais um destes “satélites” que se submetiam ao redor dela. Colocando-se sempre em um patamar superior, abusava dos jogos de poder e acreditava estar acima do bem e do mau. Até mesmo da culpa ela se isentava, ignorava o sofrimento que ocasionava nos meros mortais em prol dos seus objetivos.



Acima do comportamento arrogante se sobressaía uma mulher com o perfil contemporâneo e anacrônico. A estilista foi uma mulher vanguardista que quebrou os padrões da moda na época. A atriz francesa Anna Mouglalis, que foi modelo da grife Chanel na vida real, acata o papel e transmite a complexidade que foi a estilista. Ousada e decidida, a Coco Chanel deste filme representa a liberdade da mulher e a sua independência financeira em uma época em que isto era raro, e mais do que isto, retira delicadamente o tecido fino que a esconde e expõe a cegueira imperial na qual ela se escondia.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A origem das ilusões.

E depois de tanto querer ir assisti-lo, foi em um momento de impulso que eu me vi dentro do cinema pronta para ver “A Origem”. Sentada na ultima fileira, em uma sessão no shopping Frei Caneca eu acompanhei inquieta a história em que o ladrão Cobb, representado por Leonardo Di Caprio, entrava nos sonhos alheios e apagava algumas memórias ou idéias. Cobb tem a única missão de voltar para sua família e para isto ele aceita qualquer desafio, até mesmo tornar-se parte de um crime. Como em muitos filmes hollywoodianos, os fins justificam os meios quando a finalidade for o bem familiar, que de acordo com o mundo do entretenimento esta é a instituição que deve estar acima de qualquer outra.

Diante de algumas idéias já divulgadas em outros filmes, “A Origem” apresenta-se como um filme comercial, com muita ação, longas cenas de tiroteio, um som que garante muita diversão e cenários para encher os olhos com belas visões. Peca ao não introduzir um contexto, não se compreende muito bem da onde surgiram estes profissionais que atuam com sonhos e nem qual o papel disto naquela sociedade. Sabe-se somente que eles existem e que podem ir para o “mercado negro” dos sonhos.

Onze anos depois do lançamento de Matrix, Christopher Nolan, diretor e roteirista do filme, retoma o questionamento em relação à realidade em que vivemos, porém apresenta um novo foco. Com influência da psicanálise, o irreal não é mais o que é externo a nós, como era em Matrix, agora ele está dentro de nós. Os personagens do filme apresentam este questionamento como algo viciante, uma vez experimentado, jamais poderá ser evitado. Isto porque, eles colocam em prova os próprios sentidos, a percepção que sustenta o que é real não consegue mais discernir o que não é, já que as emoções apresentam-se tão fortes tanto dormindo quanto acordados. E pior do quem em Matrix, o despertar não basta, porque a confusão é interna.

Freud e Jung são apresentados à cultura de massa e muito bem recepcionados. “A Origem” apresenta filas enormes nos cinemas e espectadores decepcionados com a insuficiência dos ingressos. A realidade dos sonhos no filme é exposta como algo fora do padrão, com linearidade e alguns absurdos que os dois psicanalistas citados discordariam completamente, mas não é isto que me chamou a atenção.

Mais do que duvidas da realidade, o filme faz o espectador questionar se é melhor viver dormindo ou acordado, ou até mesmo em sonhos despertos. A riqueza interna do ser humano é colocada na parede e cada um sai do cinema lembrando-se das suas fantasias cheias de esperança devido aos sentimentos mal resolvidos, como a culpa, desilusões amorosas, autoestima baixa e outros conflitos. Estas ilusões não fazem parte do mundo real, mas ali, dentro de nós, são tão vivas e reais quanto às externas e fazemos questão de tê-las nos reconfortando diariamente.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O despertar do Romantismo

Este final de semana eu assisti a uma peça muito interessante chamada “O despertar da Primavera”. Acompanhei calmamente as músicas que os jovens cantavam, mesmo com a minha dificuldade em compreender o diziam, entendi muito bem o que era transmitido ali. A peça passa-se durante a idade moderna, por volta dos anos 1880/90, quando os adolescentes começam a sentir os conflitos da juventude na Alemanha patriarcal, com comportamentos rígidos e influenciada pelo iluminismo.

Eles se confrontam com a sexualidade, o suicídio, o incesto, a homossexualidade, o casamento e principalmente com os ideais que Goethe já gritava para eles nesta época: os sonhos profundos dos românticos. Fugindo da rigidez e materialização da razão, os jovens vão ao encontro do sentimento, querem sentir, nem que seja a dor de uma surra. Buscam o amor, os sonhos de casamento, o sexo e vivem com o medo como o maior parceiro devido ao contexto histórico.

O que mais me chamou a atenção, por incrível que pareça, não foi esta reestruturação de antigos valores, mas o fato deles terem se tornado religiosamente presentes no mundo contemporâneo. Espantou-me descobrir que ali, naquela mesma platéia ao meu lado havia garotos que assistiam à peça pela décima vez e garotas que cantavam todas as músicas de cor. “O despertar da Primavera” apresentou-se ao seu fã clube.

A euforia das meninas na fila do banheiro, que quase desmaiavam ao falar do ator principal me deixou no mínimo intrigada. Não contive a associação, o romantismo exacerbado e a obsessão dos fãs, me fizeram lembrar, evidentemente, da saga O Crepúsculo e do seu principal mote: Se você pudesse viver para sempre, para o que você viveria? E foi exatamente ai, no motivo da existência que eu descobri, que neste contexto romântico de supervalorização dos sentimentos, o que incentivava aqueles jovens a louvar obras completamente emocionais.

Qual a grande motivação do adolescente atual? O que este garoto inserido na Idade Contemporânea, que busca a sua identidade loucamente e a sociedade apresenta somente soluções consumistas. Este jovem quer se encontrar e está inserido em um momento histórico em que tudo é questionado: as instituições, tanto familiares como sociais são facilmente desmanchadas e substituídas. E ninguém mais sabe no que acreditar, tudo se torna relativo e a verdade e a certeza não podem mais ser afirmadas.

É diante de um grupo social que passa por estes questionamentos que o adolescente contemporâneo busca a sua identidade e ele vai encontrá-la exatamente ali, no efêmero. Por isto, ele resgata o Romantismo e agora encontra um motivo pelo qual viver, exatamente como afirma Stephenie Meyer: viva para amar.

E como a peça demonstra o objeto de amor pode morrer, mas se é mantido vivo dentro de si. Com esta nostalgia os jovens enfrentam a vida e depositam na esperança dos ideais românticos um motivo para acreditar neles mesmos, chegando a comprar dez vezes um mesmo ingresso, para fugir desta realidade e sentir mais uma vez o gostinho dos seus sonhos.