quarta-feira, 11 de maio de 2011

Em busca da fada madrinha, Pinokio diz: “Eu quero ser humano de verdade.”

A peça Pinokio, em cartaz no Teatro Club Noir, apresenta uma experiência estética com o sentido nas sensações.


Vagarosamente a fonte que ilumina a platéia começa a se desfalecer. O mundo agora é escuridão. São restos de luz e a voz. Há vozes em todos os cantos, de diferentes tonalidades. É Pinokio que fala, que grita a plenos pulmões. O colorido na monocromática peça, que está em cartaz no Teatro Club Noir, está na sensação. O texto e a direção são de Roberto Alvim que apresenta o seu terceiro trabalho na direção e o segundo de criação do texto com o grupo.

Como a história do boneco italiano que buscava por meio das mentiras se tornar um menino de verdade (fábula de Carlos Collodi), mergulhamos em uma experiência, quase traumática, procurando compreender a peça. Encontramos mentiras nas falas desconexas, nos gestos não vistos, na luz que foge do espectador e no entendimento geral do que se passa.

O nariz de Pinokio não para de crescer e o espectador dilacera-se na busca de sentido. De repente um raio de luz aparece e encontramos um homem com cabeça de sapo. Há algo estranho na humanidade representada, mas isto é lógico: Pinokio é um boneco.

O grilo falante, a consciência de Pinocchio não aparece em nenhum momento. Ouve-se os lamentos de uma criatura em transformação. Os atores assustam ao gritar sobre uma existência tecno-lógica. O boneco ressurge com uma nova face, mais mecânica, mais racional, mais virtual.

A fada madrinha de Pinokio nos oferece o dom da vida, por alguns instantes, com o toque da sua varinha. Nestes momentos, sente-se que as vozes fluem no ritmo das emoções. Por final, a luz da platéia volta a se acender e espectador se reencontra novamente com o boneco-robô que carrega todos os dias dentro de si.

terça-feira, 29 de março de 2011

O passado de um homem anacrônico

Como Sebald conseguiu em seu último livro, Austerlitz, expor conflitos do homem com o tempo.


Ao ler um bom livro, somos imersos a uma realidade atemporal. O relógio parece andar muito mais rápido, tornando aqueles momentos de prazer intensamente menores e desproporcionais aos minutos. W. G. Sebald, ao escrever Austerlitz (tradução de José Marcos Macedo; Companhia das Letras; 287 páginas), documentou em seu livro este fato. Mesclando o ensaio com a ficção e uma boa dose de filosofia, o livro se refere ao nome do personagem central que corre atrás do tempo.

Assim como Austerlitz, Sebald também lutava contra o esquecimento, escreveu quatro romances: Vertigem (1990), Os Emigrantes (1992), Os Anéis de Saturno (1995) e Austerlitz (2001) que o consagrou no universo literário. Com a publicação do seu segundo livro, notou-se o esforço que ele conduzia em suas obras ao condensar pedaços da história do continente Europeu e, principalmente, tratar da temática do Holocausto.

O narrador do livro é um viajante que conhece Jacques Austerlitz em Antuérpia. A relação dos dois começa impessoal, mas depois de alguns encontros ganha o tom confessional. Entre descrições e ensaios estéticos de locais como a estação ferroviária de Liverpool Street, encontra-se a história de um homem, Austerlitz, que buscou nas paredes antigas das construções européias a sua própria vida.

Ele demonstra suas angustias quando parte em busca deste passado que lhe foi privado e seus medos que o fizeram até mesmo bloquear memórias dolorosas. Em sua jornada solitária, acompanhada pelo seu ouvinte, Auterlitz descobre-se filho de judeus checos, Maximilian e Agáta que o enviaram para o País de Gales, o afastando da segunda guerra e dos campos de concentração.

O garoto acaba sendo criado por um pastor e por sua mulher em uma atmosfera pesada e opressora de um pequeno vilarejo. E somente aos 15 anos ele descobre que não é quem imaginava ser. Parte, então, em busca de significados para o seu nome, em primeiro lugar, e depois por sua origem.

Meio perdido, entre o tempo e o espaço europeu, Austerlitz, expõe uma verdade “Eu nunca soube quem na verdade sou”. É diante desta afirmação que reconhecemos um triste legado do pós-guerra, o de personagens, que como Austerlitz buscam solidez nas antigas paredes que não foram destruidas. Mas estas, sem ter quem possa transmitir a sua história, ficam perdidas no tempo.

São os momentos de profunda introspecção e análise estética que deixam o livro rico em momentos filosóficos, como apresentado no trecho abaixo. Em busca de um passado e uma identidade, um homem se aproxima de momentos sublimes que o torna vivo e atemporal.



Trecho do Livro

“Mas era sobretudo nos dias claros de verão que sobre toda a baía de Barmouth se difundia um brilho tão uniforme que as superfícies da areia e da água, mar e terra não podiam mais se distinguidas. Todas as formas e cores se dissolviam em uma bruma cinza-pérola; não havia mais contrastes, não havia mais gradações, somente transições fluidas, palpitantes com a luz, um borrão do qual apenas a mais fugaz das visões ainda emergia, e curiosamente, disso eu me lembro bem, era a fugacidade mesma dessas visões que então dava algo próximo de um sentido de eternidade.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O inferno dentro de Hell

Lolita Pille apresenta uma personagem que se envolve em uma atmosfera dramática ao expor os conflitos de quem sente o vazio existencial.

“Se os ricos não são felizes, então a felicidade não existe”, pensa Hell rodeada de seus amigos milionários que buscam por prazeres imediatistas nas drogas. Este insight da personagem do livro Hell, de Lolita Pille contradiz a clássica idéia que está presente no inconsciente coletivo, ‘dinheiro não traz felicidade’. Todos acreditam veementemente nisto, mas ninguém deixa de correr atrás do capital, nem que seja para se obter o básico para sobrevier.

Mais do que tratar da relação dinheiro e felicidade, o livro expõe o desequilíbrio em que estão presentes diversos jovens hoje em dia. Os casos de morte por overdose são freqüentes em um grupo social que apresenta as características descritas no livro, mas não só entre os milionários. No livro, lemos os palavrões de Hell em Caps Lock, esta expressão emocional é a revolta de uma criatura que sofre com o peso da ‘angústia’. Lacan definiu este sentimento como ‘a falta da falta’, Hell não tem nada para sentir a falta, ela tem tudo, o que a deixa em um estado de paralisia, de nada, de vazio existencial.

E quando o vazio aparece o ser humano busca preenche-lo de qualquer forma. A maneira que Hell foi educada é através, unicamente, do consumo, por isto, ela confunde felicidade com dinheiro. Mas ela berra, porque os gastos diários na rua Champs-Élysées não satisfazem nunca esta solidão que existe dentro dela. Ela tem medo dos verdadeiros laços de solidariedade e reciprocidade que sustentariam os sentidos da existência dela e prefere as substâncias entorpecentes que promovem uma fuga e prazer.

É nesta figura central que encontramos a decadência humana e a distorção do que se deve ser valorizado. O retrato escrito no livro pincela a face da individualidade e angustia. Hell é apresentada como a personificação de uma palavra alemã utilizada pelos poetas românticos quando queriam dizer que nem tudo o que desejavam era possível: weltschmerz (dor do mundo), ela carrega a dor do mundo em cada célula do corpo. Em um determinado momento do livro, dentro do banheiro da boate, ela passa falando a todos “Com licença, com licença, eu gostaria de cheirar o meu pó”. Nada mais importa, bater a cabeça só vai fazer sangrar, ficar de ressaca só vai deixar com a maior dor de cabeça, o que importa de verdade é se envolver com as sensações proporcionadas por aquele instante, em que trancada numa cabine do banheiro, ela cheira o pó em cima da tampa de uma privada.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Camila "curtiu" a sua página no Facebook

Como os jovens buscam princípios para se estruturar em um mundo no qual o Facebook define, através de valores materiais, o que se deve gostar.

O que pensam os jovens hoje em dia? Está é uma pergunta complicada de se responder. Podemos encontrar a resposta em livros como Hell, de Lolita Pille, que retrata o universo decadente e imerso em drogas em que vive a elite parisiense (peça em cartaz em São Paulo), em filmes como A rede social, de David Fincher (em cartaz nos cinemas) que expõem a que ponto leva a ambição de um gênio imaturo ou, inclusive, nas páginas do Twitter e Facebook, nas quais os adolescentes têm a liberdade de publicar os desejos de consumo, com um simples “Curtir” ao clicar em marcas famosas de roupas, perfumes e até cervejas. Por estas características, torna-se fácil descrever que os jovens da atualidade apresentam características fúteis e materialistas.

Porém é possível encontrar garotos e garotas que vão contra esta corrente e são extremamente apaixonados pelos valores que adquiriram. Eles estão presentes em espaços sociais que pregam alguns conceitos antigos e tem como princípios o amor, a família, o patriotismo, a filantropia, entre outros. Encontramos raras ordens, organizações e grupos que propagam tais ensinamentos para jovens. No entanto, o que mais chama atenção é o fato de haver, sim, pessoas entre 11 a 21 que estão dispostas a se submeter a esta atmosfera estruturada com padrões que chegam a ser opostos ao que vemos nas baladas, internet e mais, ainda chegam a amar aquele grupo como uma das coisas mais importantes na vida.

A maçonaria atual abriu as portas para aos jovens e eles aprendem desde cedo alguns princípios filosóficos que afirmam: ter uma conta milionária não é tudo na vida. Camila Botossi, 21 anos, faz parte de uma ordem páramaçonica (ordem vinculada à maçonaria), a Filhas de Jó e acredita que participar deste meio “ajuda tanto no crescimento moral quanto espiritual e, de alguma forma, ajuda no nosso desenvolvimento, pois tiramos verdadeiras lições e amizades que levamos para toda nossa vida”. Da mesma forma, afirma Alfredo Genari, 20 anos, membro da ordem páramaçonica Demolay, “isto agregou qualidades à minha personalidade e caráter como liderança, confiança, humildade e respeito, em outras palavras, não me vejo sendo a pessoa que sou hoje sem a ordem Demolay”.

Há, também, aqueles que se encontram no meio de um ônibus público e decidem montar um grupo para propagar o bem. É nesta situação que surgiu o Gandaiá, criado em 2008, atuante na cidade de Indaiatuba, interior de São Paulo. O objetivo deles é humanizar espaços, onde vivem idosos e crianças carentes, de carinho e bom humor, através da arte clown. Vestidos de palhaços estes jovens não cobram dinheiro algum, buscam somente espalhar momentos de alegria por onde passam. Vinícius Denny, que integra o grupo há 2 anos afirma que “ao ajudar outras pessoas, eu estou me ajudando de diversas maneiras. Estou passando por experiências, escutando relatos de pessoas muito mais experientes que eu e aprendendo o que eles me passam”.

Diferente da trágica história da jovem Hell, que sem estrutura e valores pessoais, joga-se nas drogas para suprir o vazio e de Mark Zuckerberg (criador do Facebook), que mesmo se tornando um dos jovens mais ricos do mundo é também extremamente solitário, estes garotos e garotas participam de grupos que trabalham o individuo, eles vão enxergar que são parte de uma sociedade e contribuir da maneira que puder, seja filantropicamente ou através da sua vocação propagando bons princípios onde for.

Como disse Vinícius, ao explicar a diferença entre o clown e o palhaço, “O clown tira as máscaras sociais e expõe o ridículo. Todas aquelas características que você normalmente não pode explorar em você, por pressão da sociedade, aparências, convenções e etc. E que, muitas vezes, você nem sabe que tem. É muito relacionado ao autoconhecimento”. É por meio desta realidade que estes adolescentes deixam de ser palhaços e se tornam responsáveis por suas ações. Com maturidade, eles encaram a vida buscando mais do que dinheiro e uma constante felicidade, aceitam que devemos sofrer e que o clown também vai chorar de tristeza.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Uma noite com Noel

Esta semana tive o privilégio de participar da 6ª edição do Prêmio Bravo! Prime de Cultura. Vi diversos artistas conhecidos entrando pela mesma porta que eu e colocando uma pulseirinha colorida que permitia circular por ali. Eu estava acompanhada de três amigos, saímos do carro e já fomos para a fila da entrada. A chuva que estava para cair, prenunciava o choro e lamento que reencarnaria ali dentro nas musicas de Noel Rosa.

Lá dentro peguei um suco de maçã e degustei logo na entrada o prazer de caminhar pela Sala São Paulo. Os aperitivos sofisticados não me chamavam tanta atenção quanto à variedade de vestimentas presentes. Sem definição de traje observava-se vestidos longos, curtos, calças sociais e jeans, ternos e roupas descoladas, o desfile ali era mostrar o seu estilo. Uma estética que igual aos comes e bebes não exigia definição, misturava os doces e salgados no mundo contemporâneo.

Depois de fotografar a minha amiga ao lado do cara dos Titãs e observar de longe esta mesma figura pedir uma foto para a Mallu Magalhães e Thelma de Freitas, ouvimos a solicitação para que as pessoas com pulseira verde entrassem. Era a nossa vez! Sentamos, sacamos as câmeras e vivemos nosso momento estrela ali na platéia dos famosos.

Um vídeo começou a ser reproduzido. Eram as propagandas dos patrocinadores prenunciando naqueles créditos iniciais o grande espetáculo que nos aguardava. Uma musica de arrepiar apresentava os eventos que o Bradesco patrocinava e um vídeo filosófico demonstrava a importância da CPFL na vida de todas as pessoas que apertam interruptores.

Logo após, apareceu a reprodução de uma tela bem conhecida para os internautas: a interface do gmail. Um remetente anônimo escrevia uma mensagem a Noel Rosa. Ele contou que o Poeta da Vila é ícone nacional nas redes sociais, tem perfil no Facebook e no Twitter, vídeos no youtube e o samba atualmente rebola com a sua influência. Contou até da dança e o lirismo de uma banda chamada Parangolé que sabe muito bem o que é um “rebolation”. Ele assinou como Lázaro Ramos e, em seguida observei o próprio entrar em cena.

Cantando “com que roupa eu vou”, o ator me encantou caminhando em direção a um guarda-roupa, que estava no meio do palco, para colocar, o terno, a gravata, o colete e os sapatos que ainda faltavam para ele vestir. Nesta hora, quem recebe a palavra é Roberta Sá. Chegou com um vestidinho rosa clarinho, e uma voz gostosa que me fez dançar sentada e cantar calada. Deslumbrada, observei-a caminhar para fora do palco e deixando um Lázaro Ramos completamente vestido tomar conta do evento.

E que animação ele expunha! Este, que é um dos maiores atores nacionais, falou como um verdadeiro artista que se expressa sabiamente pela arte de iludir. Naquele discurso, entre o prêmio de melhor livro e o de melhor CD erudito eu bebi da palavra de Noel no discurso de Lázaro Ramos e me embriaguei com a banda que fez a figura centenário renascer por instantes.

No total foram em 10 categorias que artistas consagrados e reconhecidos pela revista levaram a estatueta de ponto de exclamação. Também teve a presença do Ferreira Gullar na hora de entregar o prêmio de literatura, que como bem disse o vitorioso: Não sei se estou mais feliz, porque ganhei ou, então, porque apertei a mão do Ferreira Gullar. É eu seria outra que não saberia isto direito, afinal sai de lá radiante por ter tirado uma simples foto com a fofíssima Roberta Sá.

Mas dos vencedores quem realmente roubou a cena e, inclusive, foi chamado de o mais fofo da noite, foi o Manoel de Barros. Recebeu o troféu como personalidade do ano e, mesmo não se fazendo presente, seu discurso filmado surpreendeu a todos com uma história sobre mitos e seu jeito de vovô carinhoso deixou as garotas com vontade de abraçar o velhinho sorridente e bigodudo.

Por final, comi uns docinhos deliciosos, ganhei um CD com a minha queridíssima e uma agenda pequena. Ao sair os guarda-chuvas corriam por todos os lados, os manobristas pegavam os papeizinhos para buscar os carros e a fila para ir embora crescia. Ao entrar no carro, guardei a palavra que faz chorar dentro de mim e disse silenciosamente “Adeus” ao Prêmio Bravo!.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Mary & Max fala sobre a amizade vista aos olhos de uma criança

A animação longa-metragem em stop-motion escrita e dirigida por Adam Elliot chega aos cinemas como uma tentativa de encarar as animações de uma nova maneira.

Mary & Max (Mary and Max, 2009), lançado em abril nos cinemas nacionais não segue a linha tradicional da animação ocidental, tampouco simplifica o gênero a uma faixa etária. O filme apresenta temas maduros e segue a tendência que começou em 1995 com Toy Story, quando Hollywood finalmente percebeu o valor das animações direcionadas aos adultos. Esta nova visão surgiu devido à interpretação japonesa do que é fazer cinema, na qual a animação não é somente um gênero, é considerada também um meio.

O filme trata das sutilezas da vida diante dos acasos do destino e começa quando Mary Daisy Dinkle, 8 anos, australiana, envia uma carta a Max Jerry Horowitz, 44 anos, americano. A partir daí, é colocada em choque a visão de mundo de uma garotinha cheia de curiosidade com a de um homem mais velho e fechado, assim, com esta inesperada riqueza de encontros e prazeres sutis e infantis entre os dois nasce a amizade.

Lembrando um pouco algumas características do filme de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” de Jean-Pierre Jeunet, Adam Elliot provoca sensações em seus personagens e relembra o espectador de seus prazeres infantis como comer guloseimas e assistir o seu seriado favorito. Os sentidos de cada momento da vida dos personagens apresentam um gosto particular que pode ser muito amargo, como quando Mary não consegue enxergar mais futuro nenhum ou extremamente doce, quando os dois trocam cartas animadamente recheadas de bombons.

Porém, como é direcionado para um público mais maduro o filme, mesmo tratando de temas como suicídio, casamento, filhos, religião, sexo, amor e vida em sociedade, apresenta uma inocência comum diante dos desencontros da vida, beirando a infantilidade. Encontramos em Max um adulto que não amadureceu, apresenta todos os traços de criança e, por este motivo se encontra em Mary, a menininha de 8 anos. E o filme, assim como o seu personagem principal masculino, não amadurece com o desenrolar da história, continua cultivando valores infantis e sonhos ingênuos de que a amizade ultrapassa todas as dificuldades.

Inclusive, a década em que se inicia a troca de cartas (anos 70), era comum adquirir um “pen pal”, amigos de correspondência, mas hoje isto seria praticamente impossível, devido à introdução da internet e das redes sociais que só facilitaram a comunicação e as tornaram muito mais efêmeras e sem importância para os seus usuários. A Mary do ano 2010 não iria agüentar os comentários de um velho rabugento na sua página de recados do Orkut, o que torna o filme um pouco fora de época.

Estas características demonstram que, mesmo agora com a globalização da percepção que a animação é um meio para se fazer cinema, o “ocidente” ainda insere muitas qualificações do gênero infantil até mesmo quando o filme é direcionado a um público mais adulto. Em Mary & Max pode-se observar este fato, já que o filme apresenta uma atmosfera encantadora e prazerosa, transmitindo a sensação sutil que nos faz voltar a ver o mundo como uma criança com sonhos e esperança. Mas também, a história é um pouco deslocada no tempo e recheada de sonhos infantis, oferece o gostinho da infância novamente e faz lembrar como era bom acreditar que a amizade supera qualquer barreira.

Uma vanguardista um tanto quanto egocêntrica.

O filme “Coco Chanel & Igor Stravinsky” deixa nua a mulher que tinha como missão de vida vestir a elite.



Foi em Paris, no dia 29 de maio de 1913, durante o balé “A Sagração da Primavera” que Coco Chanel teve contato pela primeira vez com a obra do russo Igor Stravinsky. Enquanto a plateia vaiava e criticava a apresentação aos berros, Coco estava a se deliciar com o que via e admirava os dançarinos que pisoteavam o chão avidamente. Eles causavam estranhamento e os sons percussivos que saiam dos instrumentos de corda chegou a deixar todos chocados. Chanel ficou encantada com esta música vanguardista que, assim como ela, buscava a quebra de regras da Idade Moderna.



Esta é a primeira cena do filme Coco Chanel & Igor Stravinsky (2009), de Jane Kounen, que estreou este mês em São Paulo. Adaptado do livro “Coco & Igor”, de Chris Greenhalgh (que colaborou com o roteiro), o longa expõe o lado mais cru e arrogante da pessoa que foi Coco Chanel e conta o romance destas duas figuras importantes da época.



Sete anos após o primeiro contato, Stravinsky se exila na França na companhia dos filhos e da mulher e é apresentado à famosa estilista. Ela o acolhe em sua casa de campo, oferecendo o conforto de uma mansão. Coco sentia-se na liberdade de chegar a hora que bem entendesse e fazer o que bem quisesse com os moradores da casa e, no que dizia respeito ao compositor, isso incluía um jogo de sedução e prazeres sexuais. As cenas em que os dois estão na cama são apresentadas com uma primorosa direção de arte, que combina a arquitetura e decoração moderna da mansão com os dois corpos nus, como se eles fossem parte do ambiente doméstico.



Em paralelo ao romance tórrido, a estilista busca também um perfume que seja a sua representação odora e analisa diversas essências apresentadas, rejeitando a maior parte das opções. Quando finalmente encontra o odor ideal, dá seu nome à fragrância de número 5. E é exatamente com este perfil solar que Coco faz o mundo girar em torno de si, inclusive no relacionamento com Stravinsky, no qual a observamos tornar aquele que foi o maior compositor do século XX em mais um destes “satélites” que se submetiam ao redor dela. Colocando-se sempre em um patamar superior, abusava dos jogos de poder e acreditava estar acima do bem e do mau. Até mesmo da culpa ela se isentava, ignorava o sofrimento que ocasionava nos meros mortais em prol dos seus objetivos.



Acima do comportamento arrogante se sobressaía uma mulher com o perfil contemporâneo e anacrônico. A estilista foi uma mulher vanguardista que quebrou os padrões da moda na época. A atriz francesa Anna Mouglalis, que foi modelo da grife Chanel na vida real, acata o papel e transmite a complexidade que foi a estilista. Ousada e decidida, a Coco Chanel deste filme representa a liberdade da mulher e a sua independência financeira em uma época em que isto era raro, e mais do que isto, retira delicadamente o tecido fino que a esconde e expõe a cegueira imperial na qual ela se escondia.