A animação longa-metragem em stop-motion escrita e dirigida por Adam Elliot chega aos cinemas como uma tentativa de encarar as animações de uma nova maneira.
Mary & Max (Mary and Max, 2009), lançado em abril nos cinemas nacionais não segue a linha tradicional da animação ocidental, tampouco simplifica o gênero a uma faixa etária. O filme apresenta temas maduros e segue a tendência que começou em 1995 com Toy Story, quando Hollywood finalmente percebeu o valor das animações direcionadas aos adultos. Esta nova visão surgiu devido à interpretação japonesa do que é fazer cinema, na qual a animação não é somente um gênero, é considerada também um meio.
O filme trata das sutilezas da vida diante dos acasos do destino e começa quando Mary Daisy Dinkle, 8 anos, australiana, envia uma carta a Max Jerry Horowitz, 44 anos, americano. A partir daí, é colocada em choque a visão de mundo de uma garotinha cheia de curiosidade com a de um homem mais velho e fechado, assim, com esta inesperada riqueza de encontros e prazeres sutis e infantis entre os dois nasce a amizade.
Lembrando um pouco algumas características do filme de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” de Jean-Pierre Jeunet, Adam Elliot provoca sensações em seus personagens e relembra o espectador de seus prazeres infantis como comer guloseimas e assistir o seu seriado favorito. Os sentidos de cada momento da vida dos personagens apresentam um gosto particular que pode ser muito amargo, como quando Mary não consegue enxergar mais futuro nenhum ou extremamente doce, quando os dois trocam cartas animadamente recheadas de bombons.
Porém, como é direcionado para um público mais maduro o filme, mesmo tratando de temas como suicídio, casamento, filhos, religião, sexo, amor e vida em sociedade, apresenta uma inocência comum diante dos desencontros da vida, beirando a infantilidade. Encontramos em Max um adulto que não amadureceu, apresenta todos os traços de criança e, por este motivo se encontra em Mary, a menininha de 8 anos. E o filme, assim como o seu personagem principal masculino, não amadurece com o desenrolar da história, continua cultivando valores infantis e sonhos ingênuos de que a amizade ultrapassa todas as dificuldades.
Inclusive, a década em que se inicia a troca de cartas (anos 70), era comum adquirir um “pen pal”, amigos de correspondência, mas hoje isto seria praticamente impossível, devido à introdução da internet e das redes sociais que só facilitaram a comunicação e as tornaram muito mais efêmeras e sem importância para os seus usuários. A Mary do ano 2010 não iria agüentar os comentários de um velho rabugento na sua página de recados do Orkut, o que torna o filme um pouco fora de época.
Estas características demonstram que, mesmo agora com a globalização da percepção que a animação é um meio para se fazer cinema, o “ocidente” ainda insere muitas qualificações do gênero infantil até mesmo quando o filme é direcionado a um público mais adulto. Em Mary & Max pode-se observar este fato, já que o filme apresenta uma atmosfera encantadora e prazerosa, transmitindo a sensação sutil que nos faz voltar a ver o mundo como uma criança com sonhos e esperança. Mas também, a história é um pouco deslocada no tempo e recheada de sonhos infantis, oferece o gostinho da infância novamente e faz lembrar como era bom acreditar que a amizade supera qualquer barreira.
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