quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Uma vanguardista um tanto quanto egocêntrica.

O filme “Coco Chanel & Igor Stravinsky” deixa nua a mulher que tinha como missão de vida vestir a elite.



Foi em Paris, no dia 29 de maio de 1913, durante o balé “A Sagração da Primavera” que Coco Chanel teve contato pela primeira vez com a obra do russo Igor Stravinsky. Enquanto a plateia vaiava e criticava a apresentação aos berros, Coco estava a se deliciar com o que via e admirava os dançarinos que pisoteavam o chão avidamente. Eles causavam estranhamento e os sons percussivos que saiam dos instrumentos de corda chegou a deixar todos chocados. Chanel ficou encantada com esta música vanguardista que, assim como ela, buscava a quebra de regras da Idade Moderna.



Esta é a primeira cena do filme Coco Chanel & Igor Stravinsky (2009), de Jane Kounen, que estreou este mês em São Paulo. Adaptado do livro “Coco & Igor”, de Chris Greenhalgh (que colaborou com o roteiro), o longa expõe o lado mais cru e arrogante da pessoa que foi Coco Chanel e conta o romance destas duas figuras importantes da época.



Sete anos após o primeiro contato, Stravinsky se exila na França na companhia dos filhos e da mulher e é apresentado à famosa estilista. Ela o acolhe em sua casa de campo, oferecendo o conforto de uma mansão. Coco sentia-se na liberdade de chegar a hora que bem entendesse e fazer o que bem quisesse com os moradores da casa e, no que dizia respeito ao compositor, isso incluía um jogo de sedução e prazeres sexuais. As cenas em que os dois estão na cama são apresentadas com uma primorosa direção de arte, que combina a arquitetura e decoração moderna da mansão com os dois corpos nus, como se eles fossem parte do ambiente doméstico.



Em paralelo ao romance tórrido, a estilista busca também um perfume que seja a sua representação odora e analisa diversas essências apresentadas, rejeitando a maior parte das opções. Quando finalmente encontra o odor ideal, dá seu nome à fragrância de número 5. E é exatamente com este perfil solar que Coco faz o mundo girar em torno de si, inclusive no relacionamento com Stravinsky, no qual a observamos tornar aquele que foi o maior compositor do século XX em mais um destes “satélites” que se submetiam ao redor dela. Colocando-se sempre em um patamar superior, abusava dos jogos de poder e acreditava estar acima do bem e do mau. Até mesmo da culpa ela se isentava, ignorava o sofrimento que ocasionava nos meros mortais em prol dos seus objetivos.



Acima do comportamento arrogante se sobressaía uma mulher com o perfil contemporâneo e anacrônico. A estilista foi uma mulher vanguardista que quebrou os padrões da moda na época. A atriz francesa Anna Mouglalis, que foi modelo da grife Chanel na vida real, acata o papel e transmite a complexidade que foi a estilista. Ousada e decidida, a Coco Chanel deste filme representa a liberdade da mulher e a sua independência financeira em uma época em que isto era raro, e mais do que isto, retira delicadamente o tecido fino que a esconde e expõe a cegueira imperial na qual ela se escondia.

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